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O Milagre Que Não Pediu Permissão ao Palco

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  Uma leitura moral de Fé Demais Não Cheira Bem (1992) Há um momento em Fé Demais Não Cheira Bem que desorganiza tudo. Não o espetáculo, não a retórica, não o roteiro do falso sagrado. O que desorganiza o filme e talvez o espectador é um milagre que acontece fora do controle do homem que finge comandar Deus. Até ali, tudo funciona como deve funcionar num show religioso bem ensaiado. O pastor Jonas Nightengale, vivido com precisão desconfortável por Steve Martin, domina o palco, a música, a emoção e o tempo das lágrimas. A fé virou método. O milagre virou estratégia. A esperança virou produto parcelado em prestações de “em breve”. Mas então acontece algo que não estava no plano. Sinopse (com o foco no abismo) Jonas é um evangelista itinerante que percorre cidades pequenas com sua trupe: uma cúmplice, um fotógrafo, músicos e figurantes de fé. Nada é improvisado. Os milagres são encenados. As curas são combinadas. O povo acredita porque precisa acreditar. Em uma dessas cidades, um g...

Crítica: Fé Demais Não Cheira Bem : Quando Deus Vira Espetáculo e a Chuva Cai Mesmo Assim

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Há filmes que envelhecem. Outros, infelizmente, amadurecem junto com os nossos vícios. Fé Demais Não Cheira Bem é desses. Lançado em 1992, ele parece ter sido filmado ontem, talvez esta manhã, talvez enquanto você rolava o feed e encontrava mais um milagre com trilha sonora, câmera lenta e legenda em caixa alta. Sinopse Jonas Nightengale, interpretado com precisão cirúrgica por Steve Martin, é um pastor itinerante, carismático, eloquente e perigosamente convincente. Ele percorre pequenas cidades dos Estados Unidos com seu espetáculo religioso cuidadosamente ensaiado: curas, testemunhos, lágrimas cronometradas, música emocional e promessas vagas, mas irresistíveis. Nada ali é improviso. Cada milagre tem uma coreografia. Cada palavra foi testada. Cada pausa foi calculada para arrancar fé e dinheiro. Ao chegar a uma cidade assolada pela seca, Jonas encontra um povo desesperado. Pessoas doentes, famílias quebradas, agricultores à beira da falência. É o terreno perfeito para a fé-espetácul...

Seis Dias de Trabalho, Um de Vida: A Escala 6×1 e a Falência do Bom Senso

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  A escala 6×1 é o retrato fiel de um país cansado que aprendeu a chamar cansaço de virtude. Trabalha-se seis dias para descansar um. Ou melhor: trabalha-se seis dias para passar um sétimo tentando lembrar quem se é fora do trabalho. Quando chega a folga, o corpo pede cama, a alma pede silêncio e a cabeça só pensa que amanhã tudo começa outra vez. Criou-se um sistema em que o descanso virou concessão, não direito. O trabalhador vive como quem espera visita: sempre preparando a casa, mas nunca morando nela. E isso foi normalizado com um discurso moral curioso: “é assim mesmo”, “sempre foi assim”, “se mudar quebra o país”. Quando o assunto surge, a conversa morre rápido. A esquerda diz que precisa reduzir a jornada e para por aí. A direita responde que isso vai quebrar o Brasil e também para por aí. Um grita, o outro se assusta, e ninguém resolve. No fim, sobra para quem acorda cedo e volta tarde. Mas talvez o erro esteja em achar que a única saída é escolher entre dois extremos: ou ...