Michael (1996): Quando o Céu Desce à Terra… de Camisa Aberta
Há filmes que falam de anjos como se falassem de santos de vitral: etéreos, corretos, inalcançáveis. Michael (1996), dirigido por Nora Ephron, faz exatamente o contrário e nisso reside seu maior risco e sua maior virtude. Aqui, o anjo não flutua. Ele fuma, bebe, dança, sente desejo e tem um olhar cansado de quem já viu demais da humanidade… e ainda assim insiste nela.
Michael não desce do céu para pregar moral. Ele aparece como quem invade uma repartição pública: inconveniente, barulhento e impossível de ignorar. E talvez seja justamente isso que o filme queira dizer desde o primeiro minuto o sagrado, quando é verdadeiro, não pede licença nem se veste de solenidade.
Sinopse: um anjo fora do molde
Três jornalistas fracassados são enviados a uma pequena cidade para investigar uma estranha história: uma mulher afirma viver com um anjo. Eles esperam encontrar mais uma farsa religiosa, um delírio provinciano ou, no máximo, uma boa manchete sensacionalista.
No lugar disso, encontram Michael.
Ele não tem asas visíveis, mas tem presença. Não faz milagres espetaculares, mas muda destinos. Não fala como um profeta, mas enxerga as pessoas com uma lucidez desconcertante. E, acima de tudo, não parece preocupado em convencer ninguém de que é um anjo.
Michael simplesmente é.
Ao longo da viagem de retorno, o que se transforma não é a prova da existência do divino, mas os próprios personagens gente quebrada, cínica, emocionalmente falida, que acreditava saber demais para ainda crer em algo.
Crítica: o escândalo do sagrado imperfeito
O maior mérito de Michael está na coragem de sugerir que a graça não é limpa, organizada ou confortável. O anjo do filme não premia os bons nem castiga os maus. Ele observa, provoca e, às vezes, apenas sorri — como quem sabe que a humanidade não precisa de sermões, mas de encontros.
Há uma ironia fina e constante: os jornalistas, profissionais da palavra e da razão, são incapazes de compreender o que está diante deles. Já o anjo, que deveria ser o mensageiro, quase não explica nada. Ele age. Ele olha. Ele toca.
O filme propõe uma ideia incômoda: talvez a fé não esteja na crença em milagres, mas na disposição de mudar quando somos vistos por alguém que nos conhece melhor do que nós mesmos.
Michael não transforma o mundo. Ele transforma indivíduos. E isso, no cinema e na vida, é sempre mais difícil.
Amor, corpo e redenção
Outro ponto que desconcerta o espectador mais apressado é o corpo. O anjo sente desejo. Dança. Ri alto. Ama mulheres. Isso não é um erro de roteiro é uma tese.
O filme sugere que o amor não é um estado puro, mas uma escolha atravessada por limites, falhas e riscos. Ninguém se salva sem atravessar o outro. E ninguém amadurece sem perder a ilusão de que amar é fácil.
Michael entende isso. Os humanos, não.
Talvez por isso ele pareça mais humano do que os próprios humanos e talvez seja essa a provocação central do filme.
Uma comédia com fundo moral sério
Embora embalada como comédia romântica, Michael esconde um núcleo moral surpreendentemente denso. Ele ironiza tanto o cinismo moderno quanto a religiosidade performática. Não ridiculariza a fé, mas expõe sua caricatura. Não nega o amor, mas desmascara seu egoísmo.
É um filme que sorri enquanto aponta o dedo e aponta enquanto sorri.
No fim, o anjo parte. Como sempre. O divino nunca permanece onde já cumpriu sua função. O que fica são pessoas um pouco menos cínicas, um pouco mais abertas ao espanto, e talvez só talvez mais preparadas para amar sem garantias.
Conclusão: o milagre possível
Michael não quer provar a existência de anjos. Quer lembrar que o milagre mais raro não é o sobrenatural, mas a mudança interior. O céu não se revela em grandes sinais, mas em encontros que desmontam nossas certezas.
Se existe algo de divino neste filme, não está nas asas invisíveis, mas na ideia profundamente subversiva de que o amor mesmo imperfeito, mesmo tardio ainda vale a pena.
E isso, convenhamos, é um escândalo maior do que qualquer milagre.

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