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Entre o Céu e o Inferno (2006) : O Blues da Redenção em um Filme Corajoso e Incômodo

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Entre o Céu e o Inferno é um daqueles filmes raros que parecem surgir contra a corrente do cinema contemporâneo. Dirigido por Craig Brewer e estrelado por Samuel L. Jackson e Christina Ricci , o longa mistura drama psicológico, simbolismo religioso e música blues para construir uma narrativa moral que incomoda, provoca e desafia o espectador a pensar além da superfície. A sinopse parece simples, quase minimalista: Lazarus, um ex-músico de blues profundamente religioso, vive isolado após ser abandonado pela esposa. Sua vida é marcada por uma fé intensa e por uma solidão amarga. Um dia ele encontra Rae, uma jovem gravemente ferida à beira da estrada. Ela carrega marcas físicas e emocionais profundas, resultado de uma vida desordenada e de uma compulsão sexual que a empurra continuamente para relações destrutivas. Lazarus decide ajudá-la, mas ao perceber que ela não consegue controlar seu comportamento, toma uma atitude radical: prende a jovem com uma corrente dentro de sua casa para i...

Os Missionários da Alegria e o Pecado da Tristeza

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  Há muitos anos que desconfio dos otimistas. Conheci vários: todos falsos, todos perigosos. O otimista, quando não é um canalha, é um ingênuo e ambas as espécies são igualmente nocivas. Pois bem: outro dia me apresentaram uma série, dessas de internet, chamada Smiling Friends. O título já me rendeu um arrepio: amigos sorridentes. Ora, meus amigos, não há nada mais obsceno do que um sorriso imposto. Mas como vivo num tempo em que a mentira virou virtude e a tristeza, pecado, decidi assistir. Logo descobri que os tais Smiling Friends são funcionários de uma empresa cujo trabalho vejam o absurdo  consiste em fazer pessoas sorrirem. Eu, que nunca consegui fazer sorrir sequer os meus mortos, encarei aquilo como uma provocação pessoal. Ali estão Pim e Charlie, dois funcionários que dariam excelentes personagens da minha galeria: o primeiro é um otimista militante, desses que acreditam que um abraço pode salvar um suicida; o segundo é um derrotado profissional, um pessimista nato, u...

Crítica Coração de Cavaleiro: o dia em que um escudeiro ousou desafiar o destino

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  Há filmes que parecem apenas diversão barulhenta de domingo à tarde: lanças quebrando, cavalos correndo e a poeira dos torneios subindo ao céu. Mas alguns deles escondem uma pequena rebelião contra a ordem do mundo. Coração de Cavaleiro é um desses casos curiosos: por fora, aventura; por dentro, uma provocação sobre quem pode ou não ocupar certos lugares na sociedade. A história começa quando William Thatcher, um escudeiro pobre, vê seu senhor morrer no meio de um torneio. Naquele instante surge a tentação ou talvez a ousadia de atravessar uma fronteira invisível: ele decide vestir a armadura e fingir ser um cavaleiro. Não está sozinho nessa loucura. Ao seu lado estão dois escudeiros que parecem saídos de naturezas opostas. Um é ruivo, impulsivo, quase sempre pronto para a briga, como se carregasse dentro de si uma pequena tempestade permanente e acreditasse que o mundo só aprende pela dor. O outro é o contrário: mais cauteloso, mais pé no chão, o tipo de homem que entende que s...

Crítica E Se Fosse Verdade… (2005): Quando o Amor Acontece Entre a Vida e a Negação

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  Há histórias que começam com uma pergunta simples e terminam revelando algo que preferíamos não encarar. E Se Fosse Verdade… (2005) se apresenta como uma comédia romântica leve, quase inofensiva, mas por trás do verniz simpático esconde uma provocação desconfortável: o quanto estamos vivos de fato quando ainda respiramos? O filme não fala apenas de fantasmas. Fala de pessoas que já morreram por dentro e insistem em pagar aluguel. Sinopse: um corpo em coma, uma alma inquieta Elizabeth é uma médica brilhante, dedicada, eficiente e emocionalmente indisponível. Vive para o trabalho, ignora o próprio corpo e trata a vida como um plantão infinito. Um acidente a coloca em coma, suspensa entre dois mundos. David, por sua vez, é o oposto complementar: um homem enlutado, retraído, vivendo no modo automático depois da morte da esposa. Ele ocupa o antigo apartamento de Elizabeth e, contra toda lógica, passa a vê-la. Não como memória. Não como imaginação. Mas como presença. Ela não...

Michael (1996): Quando o Céu Desce à Terra… de Camisa Aberta

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  Há filmes que falam de anjos como se falassem de santos de vitral: etéreos, corretos, inalcançáveis. Michael (1996), dirigido por Nora Ephron, faz exatamente o contrário e nisso reside seu maior risco e sua maior virtude. Aqui, o anjo não flutua. Ele fuma, bebe, dança, sente desejo e tem um olhar cansado de quem já viu demais da humanidade… e ainda assim insiste nela. Michael não desce do céu para pregar moral. Ele aparece como quem invade uma repartição pública: inconveniente, barulhento e impossível de ignorar. E talvez seja justamente isso que o filme queira dizer desde o primeiro minuto o sagrado, quando é verdadeiro, não pede licença nem se veste de solenidade. Sinopse: um anjo fora do molde Três jornalistas fracassados são enviados a uma pequena cidade para investigar uma estranha história: uma mulher afirma viver com um anjo. Eles esperam encontrar mais uma farsa religiosa, um delírio provinciano ou, no máximo, uma boa manchete sensacionalista. No lugar disso, enc...