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E Se Fosse Verdade… (2005): Quando o Amor Acontece Entre a Vida e a Negação

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  Há histórias que começam com uma pergunta simples e terminam revelando algo que preferíamos não encarar. E Se Fosse Verdade… (2005) se apresenta como uma comédia romântica leve, quase inofensiva, mas por trás do verniz simpático esconde uma provocação desconfortável: o quanto estamos vivos de fato quando ainda respiramos? O filme não fala apenas de fantasmas. Fala de pessoas que já morreram por dentro e insistem em pagar aluguel. Sinopse: um corpo em coma, uma alma inquieta Elizabeth é uma médica brilhante, dedicada, eficiente e emocionalmente indisponível. Vive para o trabalho, ignora o próprio corpo e trata a vida como um plantão infinito. Um acidente a coloca em coma, suspensa entre dois mundos. David, por sua vez, é o oposto complementar: um homem enlutado, retraído, vivendo no modo automático depois da morte da esposa. Ele ocupa o antigo apartamento de Elizabeth e, contra toda lógica, passa a vê-la. Não como memória. Não como imaginação. Mas como presença. Ela não...

Michael (1996): Quando o Céu Desce à Terra… de Camisa Aberta

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  Há filmes que falam de anjos como se falassem de santos de vitral: etéreos, corretos, inalcançáveis. Michael (1996), dirigido por Nora Ephron, faz exatamente o contrário e nisso reside seu maior risco e sua maior virtude. Aqui, o anjo não flutua. Ele fuma, bebe, dança, sente desejo e tem um olhar cansado de quem já viu demais da humanidade… e ainda assim insiste nela. Michael não desce do céu para pregar moral. Ele aparece como quem invade uma repartição pública: inconveniente, barulhento e impossível de ignorar. E talvez seja justamente isso que o filme queira dizer desde o primeiro minuto o sagrado, quando é verdadeiro, não pede licença nem se veste de solenidade. Sinopse: um anjo fora do molde Três jornalistas fracassados são enviados a uma pequena cidade para investigar uma estranha história: uma mulher afirma viver com um anjo. Eles esperam encontrar mais uma farsa religiosa, um delírio provinciano ou, no máximo, uma boa manchete sensacionalista. No lugar disso, enc...

O homem que precisava de bênção, mas cochilava diante dela

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Hoje eu estava no sofá, desses que afundam um pouco a alma junto com o corpo, assistindo Sorrindo para a Vida , na Canção Nova. A televisão ligada, a Palavra sendo anunciada, Márcio Mendes falando de Gênesis 4, 1–7 Caim, Abel, o coração, o pecado à porta e a cena paralela era mais eloquente que o programa. Meu pai, sentado na cadeira de ferro que ele adora, aquela que parece feita para quem não pretende se levantar tão cedo. No começo, ele até olha. Depois boceja. Cruza os braços. Pega o celular. Faz coisas aleatórias, como quem foge de um espelho. Por fim, atende uma ligação. A Palavra seguia; ele se retirava sem sair do lugar. E eu pensei, com uma ironia amarga: é sempre assim, quem mais precisa da bênção costuma ser o mais indiferente a ela. Meu pai tem um problema sério no joelho. Anda com dificuldade. Precisa de cirurgia. Vive reclamando da dor, mas nunca da causa. A causa tem nome e sobrenome: excesso de trabalho, anos se matando no serviço, nenhuma cultura de cuidado consigo mes...

O coração que oferece e o coração que disputa

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  Hoje, lendo a antiga passagem de Gênesis 4, 1–7, não tive a impressão de estar diante de um texto religioso distante, arqueológico ou simbólico demais. Pelo contrário: parecia um espelho incômodo, desses que a gente evita olhar quando passa apressado pelo corredor. Ali estão Caim e Abel, mas ali também está o Brasil inteiro — e, se formos honestos, estamos nós mesmos. Naquele tempo, oferecer sacrifícios era algo natural. Era a linguagem do vínculo com Deus. Abel, diz o texto, oferece os primogênitos do seu rebanho e as gorduras, isto é, o melhor, o que tinha valor real, o que custava. Caim também oferece algo, mas o texto é seco, quase frio: ele oferece “dos frutos da terra”. Não diz que eram os melhores, não diz que eram os primeiros, não diz que havia entrega, apenas cumprimento. E então acontece o escândalo: Deus olha com agrado para Abel e sua oblação, mas não olha para Caim nem para seus dons. A ferida nasce aí. Não no gesto de Deus, mas no coração de Caim. O texto é cir...