O homem que precisava de bênção, mas cochilava diante dela
Hoje eu estava no sofá, desses que afundam um pouco a alma junto com o corpo, assistindo Sorrindo para a Vida , na Canção Nova. A televisão ligada, a Palavra sendo anunciada, Márcio Mendes falando de Gênesis 4, 1–7 Caim, Abel, o coração, o pecado à porta e a cena paralela era mais eloquente que o programa. Meu pai, sentado na cadeira de ferro que ele adora, aquela que parece feita para quem não pretende se levantar tão cedo. No começo, ele até olha. Depois boceja. Cruza os braços. Pega o celular. Faz coisas aleatórias, como quem foge de um espelho. Por fim, atende uma ligação. A Palavra seguia; ele se retirava sem sair do lugar. E eu pensei, com uma ironia amarga: é sempre assim, quem mais precisa da bênção costuma ser o mais indiferente a ela. Meu pai tem um problema sério no joelho. Anda com dificuldade. Precisa de cirurgia. Vive reclamando da dor, mas nunca da causa. A causa tem nome e sobrenome: excesso de trabalho, anos se matando no serviço, nenhuma cultura de cuidado consigo mes...