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Os Missionários da Alegria e o Pecado da Tristeza

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  Há muitos anos que desconfio dos otimistas. Conheci vários: todos falsos, todos perigosos. O otimista, quando não é um canalha, é um ingênuo e ambas as espécies são igualmente nocivas. Pois bem: outro dia me apresentaram uma série, dessas de internet, chamada Smiling Friends. O título já me rendeu um arrepio: amigos sorridentes. Ora, meus amigos, não há nada mais obsceno do que um sorriso imposto. Mas como vivo num tempo em que a mentira virou virtude e a tristeza, pecado, decidi assistir. Logo descobri que os tais Smiling Friends são funcionários de uma empresa cujo trabalho vejam o absurdo  consiste em fazer pessoas sorrirem. Eu, que nunca consegui fazer sorrir sequer os meus mortos, encarei aquilo como uma provocação pessoal. Ali estão Pim e Charlie, dois funcionários que dariam excelentes personagens da minha galeria: o primeiro é um otimista militante, desses que acreditam que um abraço pode salvar um suicida; o segundo é um derrotado profissional, um pessimista nato, u...

Crítica Coração de Cavaleiro: o dia em que um escudeiro ousou desafiar o destino

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  Há filmes que parecem apenas diversão barulhenta de domingo à tarde: lanças quebrando, cavalos correndo e a poeira dos torneios subindo ao céu. Mas alguns deles escondem uma pequena rebelião contra a ordem do mundo. Coração de Cavaleiro é um desses casos curiosos: por fora, aventura; por dentro, uma provocação sobre quem pode ou não ocupar certos lugares na sociedade. A história começa quando William Thatcher, um escudeiro pobre, vê seu senhor morrer no meio de um torneio. Naquele instante surge a tentação ou talvez a ousadia de atravessar uma fronteira invisível: ele decide vestir a armadura e fingir ser um cavaleiro. Não está sozinho nessa loucura. Ao seu lado estão dois escudeiros que parecem saídos de naturezas opostas. Um é ruivo, impulsivo, quase sempre pronto para a briga, como se carregasse dentro de si uma pequena tempestade permanente e acreditasse que o mundo só aprende pela dor. O outro é o contrário: mais cauteloso, mais pé no chão, o tipo de homem que entende que s...

Crítica E Se Fosse Verdade… (2005): Quando o Amor Acontece Entre a Vida e a Negação

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  Há histórias que começam com uma pergunta simples e terminam revelando algo que preferíamos não encarar. E Se Fosse Verdade… (2005) se apresenta como uma comédia romântica leve, quase inofensiva, mas por trás do verniz simpático esconde uma provocação desconfortável: o quanto estamos vivos de fato quando ainda respiramos? O filme não fala apenas de fantasmas. Fala de pessoas que já morreram por dentro e insistem em pagar aluguel. Sinopse: um corpo em coma, uma alma inquieta Elizabeth é uma médica brilhante, dedicada, eficiente e emocionalmente indisponível. Vive para o trabalho, ignora o próprio corpo e trata a vida como um plantão infinito. Um acidente a coloca em coma, suspensa entre dois mundos. David, por sua vez, é o oposto complementar: um homem enlutado, retraído, vivendo no modo automático depois da morte da esposa. Ele ocupa o antigo apartamento de Elizabeth e, contra toda lógica, passa a vê-la. Não como memória. Não como imaginação. Mas como presença. Ela não...

Michael (1996): Quando o Céu Desce à Terra… de Camisa Aberta

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  Há filmes que falam de anjos como se falassem de santos de vitral: etéreos, corretos, inalcançáveis. Michael (1996), dirigido por Nora Ephron, faz exatamente o contrário e nisso reside seu maior risco e sua maior virtude. Aqui, o anjo não flutua. Ele fuma, bebe, dança, sente desejo e tem um olhar cansado de quem já viu demais da humanidade… e ainda assim insiste nela. Michael não desce do céu para pregar moral. Ele aparece como quem invade uma repartição pública: inconveniente, barulhento e impossível de ignorar. E talvez seja justamente isso que o filme queira dizer desde o primeiro minuto o sagrado, quando é verdadeiro, não pede licença nem se veste de solenidade. Sinopse: um anjo fora do molde Três jornalistas fracassados são enviados a uma pequena cidade para investigar uma estranha história: uma mulher afirma viver com um anjo. Eles esperam encontrar mais uma farsa religiosa, um delírio provinciano ou, no máximo, uma boa manchete sensacionalista. No lugar disso, enc...

O homem que precisava de bênção, mas cochilava diante dela

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Hoje eu estava no sofá, desses que afundam um pouco a alma junto com o corpo, assistindo Sorrindo para a Vida , na Canção Nova. A televisão ligada, a Palavra sendo anunciada, Márcio Mendes falando de Gênesis 4, 1–7 Caim, Abel, o coração, o pecado à porta e a cena paralela era mais eloquente que o programa. Meu pai, sentado na cadeira de ferro que ele adora, aquela que parece feita para quem não pretende se levantar tão cedo. No começo, ele até olha. Depois boceja. Cruza os braços. Pega o celular. Faz coisas aleatórias, como quem foge de um espelho. Por fim, atende uma ligação. A Palavra seguia; ele se retirava sem sair do lugar. E eu pensei, com uma ironia amarga: é sempre assim, quem mais precisa da bênção costuma ser o mais indiferente a ela. Meu pai tem um problema sério no joelho. Anda com dificuldade. Precisa de cirurgia. Vive reclamando da dor, mas nunca da causa. A causa tem nome e sobrenome: excesso de trabalho, anos se matando no serviço, nenhuma cultura de cuidado consigo mes...