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O homem que precisava de bênção, mas cochilava diante dela

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Hoje eu estava no sofá, desses que afundam um pouco a alma junto com o corpo, assistindo Sorrindo para a Vida , na Canção Nova. A televisão ligada, a Palavra sendo anunciada, Márcio Mendes falando de Gênesis 4, 1–7 Caim, Abel, o coração, o pecado à porta e a cena paralela era mais eloquente que o programa. Meu pai, sentado na cadeira de ferro que ele adora, aquela que parece feita para quem não pretende se levantar tão cedo. No começo, ele até olha. Depois boceja. Cruza os braços. Pega o celular. Faz coisas aleatórias, como quem foge de um espelho. Por fim, atende uma ligação. A Palavra seguia; ele se retirava sem sair do lugar. E eu pensei, com uma ironia amarga: é sempre assim, quem mais precisa da bênção costuma ser o mais indiferente a ela. Meu pai tem um problema sério no joelho. Anda com dificuldade. Precisa de cirurgia. Vive reclamando da dor, mas nunca da causa. A causa tem nome e sobrenome: excesso de trabalho, anos se matando no serviço, nenhuma cultura de cuidado consigo mes...

O coração que oferece e o coração que disputa

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  Hoje, lendo a antiga passagem de Gênesis 4, 1–7, não tive a impressão de estar diante de um texto religioso distante, arqueológico ou simbólico demais. Pelo contrário: parecia um espelho incômodo, desses que a gente evita olhar quando passa apressado pelo corredor. Ali estão Caim e Abel, mas ali também está o Brasil inteiro — e, se formos honestos, estamos nós mesmos. Naquele tempo, oferecer sacrifícios era algo natural. Era a linguagem do vínculo com Deus. Abel, diz o texto, oferece os primogênitos do seu rebanho e as gorduras, isto é, o melhor, o que tinha valor real, o que custava. Caim também oferece algo, mas o texto é seco, quase frio: ele oferece “dos frutos da terra”. Não diz que eram os melhores, não diz que eram os primeiros, não diz que havia entrega, apenas cumprimento. E então acontece o escândalo: Deus olha com agrado para Abel e sua oblação, mas não olha para Caim nem para seus dons. A ferida nasce aí. Não no gesto de Deus, mas no coração de Caim. O texto é cir...

O Milagre Que Não Pediu Permissão ao Palco

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  Uma leitura moral de Fé Demais Não Cheira Bem (1992) Há um momento em Fé Demais Não Cheira Bem que desorganiza tudo. Não o espetáculo, não a retórica, não o roteiro do falso sagrado. O que desorganiza o filme e talvez o espectador é um milagre que acontece fora do controle do homem que finge comandar Deus. Até ali, tudo funciona como deve funcionar num show religioso bem ensaiado. O pastor Jonas Nightengale, vivido com precisão desconfortável por Steve Martin, domina o palco, a música, a emoção e o tempo das lágrimas. A fé virou método. O milagre virou estratégia. A esperança virou produto parcelado em prestações de “em breve”. Mas então acontece algo que não estava no plano. Sinopse (com o foco no abismo) Jonas é um evangelista itinerante que percorre cidades pequenas com sua trupe: uma cúmplice, um fotógrafo, músicos e figurantes de fé. Nada é improvisado. Os milagres são encenados. As curas são combinadas. O povo acredita porque precisa acreditar. Em uma dessas cidades, um g...

Crítica: Fé Demais Não Cheira Bem : Quando Deus Vira Espetáculo e a Chuva Cai Mesmo Assim

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Há filmes que envelhecem. Outros, infelizmente, amadurecem junto com os nossos vícios. Fé Demais Não Cheira Bem é desses. Lançado em 1992, ele parece ter sido filmado ontem, talvez esta manhã, talvez enquanto você rolava o feed e encontrava mais um milagre com trilha sonora, câmera lenta e legenda em caixa alta. Sinopse Jonas Nightengale, interpretado com precisão cirúrgica por Steve Martin, é um pastor itinerante, carismático, eloquente e perigosamente convincente. Ele percorre pequenas cidades dos Estados Unidos com seu espetáculo religioso cuidadosamente ensaiado: curas, testemunhos, lágrimas cronometradas, música emocional e promessas vagas, mas irresistíveis. Nada ali é improviso. Cada milagre tem uma coreografia. Cada palavra foi testada. Cada pausa foi calculada para arrancar fé e dinheiro. Ao chegar a uma cidade assolada pela seca, Jonas encontra um povo desesperado. Pessoas doentes, famílias quebradas, agricultores à beira da falência. É o terreno perfeito para a fé-espetácul...