E Se Fosse Verdade… (2005): Quando o Amor Acontece Entre a Vida e a Negação


 

Há histórias que começam com uma pergunta simples e terminam revelando algo que preferíamos não encarar. E Se Fosse Verdade… (2005) se apresenta como uma comédia romântica leve, quase inofensiva, mas por trás do verniz simpático esconde uma provocação desconfortável: o quanto estamos vivos de fato quando ainda respiramos?


O filme não fala apenas de fantasmas. Fala de pessoas que já morreram por dentro e insistem em pagar aluguel.


Sinopse: um corpo em coma, uma alma inquieta


Elizabeth é uma médica brilhante, dedicada, eficiente e emocionalmente indisponível. Vive para o trabalho, ignora o próprio corpo e trata a vida como um plantão infinito. Um acidente a coloca em coma, suspensa entre dois mundos.


David, por sua vez, é o oposto complementar: um homem enlutado, retraído, vivendo no modo automático depois da morte da esposa. Ele ocupa o antigo apartamento de Elizabeth e, contra toda lógica, passa a vê-la. Não como memória. Não como imaginação. Mas como presença.


Ela não aceita estar morta. Ele não aceita estar vivo. E dessa recusa mútua nasce algo que o filme insiste em chamar de amor mas que, no fundo, é um choque de consciências.


A ironia central: quem está mais morto?


O grande truque moral do filme não está no elemento sobrenatural, mas na inversão de papéis. Elizabeth, mesmo em coma, é inquieta, exigente, mandona, cheia de vontade. David, plenamente vivo, é um homem ausente de si mesmo.


O espectador percebe rapidamente que o coma não é apenas clínico é simbólico. Elizabeth dorme num hospital; David dorme na própria vida. E talvez o filme sugira algo incômodo: há pessoas que só começam a viver quando já perderam tudo.


A presença dela obriga David a sair da paralisia emocional. A presença dele obriga Elizabeth a enxergar o vazio que era sua rotina. Ambos são confrontados por aquilo que evitavam: o risco de sentir.


Amor como interrupção, não como conforto


Diferente das comédias românticas tradicionais, E Se Fosse Verdade… não vende o amor como solução mágica. Aqui, amar dói, confunde e desorganiza. Não traz respostas prontas traz perguntas atrasadas.


O romance nasce em circunstâncias absurdas, quase inconvenientes, como se o próprio filme zombasse da ideia de “momento certo”. Não há momento certo quando se trata de vida. Ou se vive, ou se adia até virar estatística.


Elizabeth aprende que competência não salva ninguém do vazio. David aprende que luto prolongado não é fidelidade, é desistência.


Crítica social disfarçada de leveza


Por trás do humor e do tom fantasioso, o filme carrega uma crítica silenciosa à lógica moderna de produtividade. Elizabeth é o retrato da excelência admirada — e da infelicidade ignorada. Vive para ser útil, não para ser humana.


O coma funciona como punição simbólica de uma sociedade que só permite parar quando o corpo quebra. É preciso um acidente para que alguém se pergunte se estava vivendo ou apenas funcionando.


David, por outro lado, representa o cidadão emocionalmente falido, incapaz de lidar com a perda sem se anular. Ele não sofre de falta de amor, mas de medo de tentar novamente.


O sobrenatural como metáfora da consciência


O elemento fantástico nunca é o centro do filme é ferramenta. O “fantasma” de Elizabeth não assombra casas; assombra escolhas. Ela aparece apenas para quem precisa ser acordado.


E talvez o filme diga, com ironia suave: o amor verdadeiro sempre parece irreal quando acontece, porque nos tira do lugar seguro da autopiedade e nos obriga a agir.


Não é à toa que ninguém mais vê Elizabeth. Nem todos estão preparados para enxergar aquilo que exige mudança.


O final: viver é aceitar o risco


Sem entrar em spoilers diretos, o desfecho do filme recusa o cinismo absoluto, mas também não abraça a ingenuidade completa. Ele aposta numa ideia simples e perigosíssima: viver é sempre um ato de fé.


Não há garantias. Não há controle. Não há como amar sem se expor ao acidente emocional ou físico. E talvez por isso tanta gente prefira ficar em coma simbólico, chamando sobrevivência de vida.


Conclusão: entre o corpo e a coragem

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Crítica Filme a Lenda: “A Tentação Usa Vestido Preto” — Uma Tragédia em Flor e Chifre

O Jogo de Barbante: O Retrato da Incerteza no Amor Contemporâneo

Crítica de “Questão de Tempo” (2013): O Amor Como Uma Viagem no Tempo