Os Missionários da Alegria e o Pecado da Tristeza

 



Há muitos anos que desconfio dos otimistas. Conheci vários: todos falsos, todos perigosos. O otimista, quando não é um canalha, é um ingênuo e ambas as espécies são igualmente nocivas. Pois bem: outro dia me apresentaram uma série, dessas de internet, chamada Smiling Friends. O título já me rendeu um arrepio: amigos sorridentes. Ora, meus amigos, não há nada mais obsceno do que um sorriso imposto.

Mas como vivo num tempo em que a mentira virou virtude e a tristeza, pecado, decidi assistir.

Logo descobri que os tais Smiling Friends são funcionários de uma empresa cujo trabalho vejam o absurdo  consiste em fazer pessoas sorrirem. Eu, que nunca consegui fazer sorrir sequer os meus mortos, encarei aquilo como uma provocação pessoal. Ali estão Pim e Charlie, dois funcionários que dariam excelentes personagens da minha galeria: o primeiro é um otimista militante, desses que acreditam que um abraço pode salvar um suicida; o segundo é um derrotado profissional, um pessimista nato, um santo de boteco que sabe que tudo vai dar errado e dá.

Cada episódio é uma tragédia íntima, disfarçada de desenho animado. Um deprimido aqui, um lunático acolá, uma celebridade decadente pedindo, pelo amor de Deus, que alguém lhe devolva o brilho. O que me fascinou não foi a comicidade essa existe, mas é a superfície. O verdadeiro charme da série está na sua sinceridade criminosa:

ninguém ali realmente quer ser feliz.

Querem é continuar sofrendo, mas com plateia.

Há um cliente, por exemplo, que só deseja desaparecer. E quando os Smiling Friends tentam ajudá-lo, ele reage como reagiria qualquer criatura humana sensata: com ódio. Afinal, quem suporta ser salvo? Já escrevi: o homem gosta do abismo, o homem ama a própria ruína com um fervor quase religioso.

E é isso que nenhum influenciador digital, desses que se fotografam sorrindo diante do caos, jamais confessará: a felicidade cansa, a felicidade exige esforço, a felicidade dá trabalho. A tristeza, não. A tristeza é confortável como uma poltrona velha.

Ao fim do terceiro episódio, tive uma revelação que me atravessou como lança romana:

A Smiling Friends é a empresa mais brasileira que já existiu sem ser brasileira.

Temos o otimismo compulsório, a piada permanente, a tentativa heroica e sempre fracassada de arrumar o país com um sorriso. E o que conseguimos? Tragédias domésticas, políticas e morais repetidas como ladainha.


Pim e Charlie não salvam ninguém. Mas também não condenam ninguém. Apenas testemunham e isso, meus caros, é mais do que fazem muitos santos. Eles veem o pior da humanidade e continuam indo trabalhar na manhã seguinte. É um heroísmo que nenhum blockbuster ousa filmar.

Quando desliguei a televisão, fiquei pensando no sorriso.

Esse gesto simples, que só deveria aparecer espontâneo como o canto do pássaro, tornou-se uma meta, uma cobrança, uma performance. Querem que eu sorria. Querem que você sorria. Querem que todos sorriam.

E eis a verdade que a série, com a delicadeza de um tapa, revela:

forçar um sorriso é tão indecente quanto forçar um amor.

Talvez seja esse o charme indecoroso de Smiling Friends: no fundo, é uma obra sobre a impossibilidade da alegria obrigatória. Uma sátira, um espelho, uma confissão coletiva.

Termino esta crônica com a única conclusão honesta que posso oferecer:

Meu caro leitor, sorria quando quiser. Ou não sorria nunca. A tristeza, afinal, é o último refúgio dos sinceros.


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