O coração que oferece e o coração que disputa
Hoje, lendo a antiga passagem de Gênesis 4, 1–7, não tive a impressão de estar diante de um texto religioso distante, arqueológico ou simbólico demais. Pelo contrário: parecia um espelho incômodo, desses que a gente evita olhar quando passa apressado pelo corredor. Ali estão Caim e Abel, mas ali também está o Brasil inteiro — e, se formos honestos, estamos nós mesmos. Naquele tempo, oferecer sacrifícios era algo natural. Era a linguagem do vínculo com Deus. Abel, diz o texto, oferece os primogênitos do seu rebanho e as gorduras, isto é, o melhor, o que tinha valor real, o que custava. Caim também oferece algo, mas o texto é seco, quase frio: ele oferece “dos frutos da terra”. Não diz que eram os melhores, não diz que eram os primeiros, não diz que havia entrega, apenas cumprimento. E então acontece o escândalo: Deus olha com agrado para Abel e sua oblação, mas não olha para Caim nem para seus dons. A ferida nasce aí. Não no gesto de Deus, mas no coração de Caim. O texto é cir...