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Seis Dias de Trabalho, Um de Vida: A Escala 6×1 e a Falência do Bom Senso

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  A escala 6×1 é o retrato fiel de um país cansado que aprendeu a chamar cansaço de virtude. Trabalha-se seis dias para descansar um. Ou melhor: trabalha-se seis dias para passar um sétimo tentando lembrar quem se é fora do trabalho. Quando chega a folga, o corpo pede cama, a alma pede silêncio e a cabeça só pensa que amanhã tudo começa outra vez. Criou-se um sistema em que o descanso virou concessão, não direito. O trabalhador vive como quem espera visita: sempre preparando a casa, mas nunca morando nela. E isso foi normalizado com um discurso moral curioso: “é assim mesmo”, “sempre foi assim”, “se mudar quebra o país”. Quando o assunto surge, a conversa morre rápido. A esquerda diz que precisa reduzir a jornada e para por aí. A direita responde que isso vai quebrar o Brasil e também para por aí. Um grita, o outro se assusta, e ninguém resolve. No fim, sobra para quem acorda cedo e volta tarde. Mas talvez o erro esteja em achar que a única saída é escolher entre dois extremos: ou ...

A Culpa Precisa de Palco e o Julgamento de Plateia

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  Eu estava na casa da minha irmã. Natal. Ceia farta, afeto sincero e aquela tradição moderna inevitável: alguém pega o controle remoto e decide o que todos devem assistir, como se fosse um decreto municipal. Ela, emocionada como sempre, convenceu-me a ver um reality show chamado Casamento às Cegas . Confesso: não resisti. Talvez por curiosidade sociológica, talvez por fadiga espiritual. Era o último episódio da quarta temporada. Aquele momento em que os participantes reaparecem para contar ao público se o amor resistiu à vida real ou se morreu na alfândega do cotidiano. Alguns casados, outros separados, todos com discursos bem ensaiados — desses que parecem ter passado por revisão jurídica, emocional e de marketing pessoal. Entre um casal e outro, surgiu o caso que sempre surge: sexo. Ou melhor, a ausência dele. Um homem com dificuldades de ereção, uma ex-mulher acusando abuso sexual, e um silêncio constrangido que pairava no estúdio como um cheiro que ninguém quer nomear. Mas a m...

Promessas de Janeiro, Academias Cheias e um País em Suspense

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  Hoje acordei com aquela sensação ritualística: já é dia de fazer promessas de Ano Novo. A primeira delas, como manda a tradição moderna, é ir para a academia. Paga-se o mês inteiro com fé, entusiasmo e cartão de crédito. Frequenta-se três dias. No quarto, a consciência já pede desculpas ao corpo. No quinto, a matrícula vira doação voluntária. É nesta época que os donos de academias experimentam o mais próximo da multiplicação dos pães sem precisar de milagre. Janeiro é esse tempo curioso em que todos acreditam, por breves instantes, que a vida vai finalmente entrar nos trilhos. O problema é que os trilhos continuam tortos, e o trem segue sendo o mesmo. Mudam apenas as frases motivacionais coladas na geladeira. Mas, por trás das promessas pequenas — menos açúcar, mais água, mais foco existe uma pergunta grande, pesada, que ninguém resolve com halteres: o que será deste ano? Será um ano de fartura ou de aperto? De mesa cheia ou de contas atrasadas? De esperança ou de paciência ...

Entre o Desespero Inventado e o Deboche Real

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  Eu estava zapeando pelo Instagram esse novo balcão de botequim onde todos falam alto e poucos escutam quando me deparei com um perfil chamado Olá Bocos , da Débora, uma mineira que observa o mundo com aquela calma desconfiada de quem já entendeu que o absurdo raramente vem de onde se espera. O vídeo comentado não era dela. Era de uma outra mulher confesso, não a conheço que refletia, com certa angústia antecipada, sobre o desespero de ser mãe. O detalhe curioso, quase cômico se não fosse trágico: ela não era mãe. Sofria por uma vida que ainda não existia. Angustiava-se por um futuro que não chegou. Planejava dores que talvez jamais fossem suas. Até aí, nada de novo sob o sol tropical. O brasileiro tem uma vocação invejável para sofrer por antecipação e, quando não sofre, sente culpa por não estar sofrendo. A Olá Bocos reagiu. Fez um vídeo. E, ao final, lançou uma frase que caiu como um fósforo aceso num depósito de pólvora moral: “Eu não quero ser mãe. E quem disse que você pode...

Casamento às Cegas e o Medo de Dizer “Sim”

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  Guilherme, na terceira temporada de Casamento às Cegas , é esse tipo de homem. Não o vilão clássico, não o cafajeste óbvio, mas algo talvez mais perigoso: o homem que se esconde atrás da palavra razão para não se comprometer com nada. Desde o início, ele se apresenta como racional. E repete isso como um mantra, quase como um álibi moral: “eu sou racional”, “eu não sei”, “vamos ver”. O problema é que ninguém entra num programa que termina em altar para ver . Entra-se para decidir. Maira, por outro lado, entra como quem sabe o que quer. Mulher, mãe, marcada pela vida. Não busca perfeição, busca verdade. Ela não pede promessas eternas, pede apenas um sinal humano: presença, resposta, entrega. Algo que diga: estou aqui . O drama não nasce do conflito entre eles, mas do desencontro. Maira vive no tempo do agora. Guilherme vive num eterno rascunho. Ele chama tudo de “experimento”, como se o amor fosse um laboratório e não um risco. Como se fosse possível amar sem perder o chão. Há uma...

Prudência ou Medo? A Covardia Disfarçada de Virtude

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  Há uma virtude antiga chamada prudência. Ela nasceu para orientar o homem, não para algemá-lo. Prudência é a bússola; medo é o freio de mão puxado em plena estrada. O problema do nosso tempo é que passamos a chamar medo de virtude e ainda nos orgulhamos disso. Nunca se falou tanto em razão nos relacionamentos. Tudo é analisado, pesado, comparado, testado. Ama-se como quem avalia um investimento de risco. Pergunta-se sobre o futuro antes mesmo de se viver o presente. Exige-se garantia emocional como quem pede nota fiscal de um sentimento. O homem moderno, sobretudo, descobriu uma palavra confortável para esconder sua covardia: prudência. Diz que é prudente porque não se entrega. Diz que é racional porque não decide. Diz que está sendo maduro quando, na verdade, está apenas parado. Confunde razão com paralisia. A razão verdadeira ilumina o caminho; a falsa razão apenas aponta todos os perigos até que ninguém tenha coragem de dar o primeiro passo. É a razão que não conduz à ação, ap...