Promessas de Janeiro, Academias Cheias e um País em Suspense
Hoje acordei com aquela sensação ritualística: já é dia de fazer promessas de Ano Novo. A primeira delas, como manda a tradição moderna, é ir para a academia. Paga-se o mês inteiro com fé, entusiasmo e cartão de crédito. Frequenta-se três dias. No quarto, a consciência já pede desculpas ao corpo. No quinto, a matrícula vira doação voluntária. É nesta época que os donos de academias experimentam o mais próximo da multiplicação dos pães sem precisar de milagre.
Janeiro é esse tempo curioso em que todos acreditam, por breves instantes, que a vida vai finalmente entrar nos trilhos. O problema é que os trilhos continuam tortos, e o trem segue sendo o mesmo. Mudam apenas as frases motivacionais coladas na geladeira.
Mas, por trás das promessas pequenas — menos açúcar, mais água, mais foco existe uma pergunta grande, pesada, que ninguém resolve com halteres: o que será deste ano? Será um ano de fartura ou de aperto? De mesa cheia ou de contas atrasadas? De esperança ou de paciência forçada?
O calendário, além de janeiro, traz eleição. E eleição, neste país, nunca vem sozinha: vem acompanhada de brigas familiares, amizades desfeitas e especialistas políticos formados em grupos de WhatsApp. O cenário é incerto, quase teatral. De um lado, um nome que divide opiniões como faca mal amolada. Do outro, um velho conhecido que retorna como quem diz: “vocês já me conhecem”. Quem vence? Ninguém sabe. Mas todos têm certeza absoluta.
Enquanto isso, o cidadão comum essa figura esquecida entre debates e promessas de campanha faz contas. Pergunta-se se terá um emprego novo, se o salário vai durar até o fim do mês, se o esforço finalmente será recompensado ou se seguirá sobrevivendo à base de improviso e café forte.
O curioso é que falamos de previsões como se o futuro fosse um horóscopo nacional. Queremos garantias. Queremos sinais. Queremos alguém que nos diga que vai dar tudo certo. Mas a verdade é mais simples e mais cruel: o ano não promete nada. Ele apenas acontece.
Entre promessas vazias, discursos inflamados e incertezas econômicas, seguimos tentando discernir o próximo passo. Alguns com fé. Outros com cinismo. Muitos apenas com cansaço.
No fim das contas, talvez o verdadeiro ritual de Ano Novo não seja prometer academia, prosperidade ou estabilidade política. Talvez seja apenas reconhecer, com certa humildade, que seguimos tentando mesmo errando, mesmo desistindo no terceiro dia.
E isso, num país acostumado a sobreviver, já é uma forma discreta de esperança.

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