O homem que precisava de bênção, mas cochilava diante dela


Hoje eu estava no sofá, desses que afundam um pouco a alma junto com o corpo, assistindo Sorrindo para a Vida, na Canção Nova. A televisão ligada, a Palavra sendo anunciada, Márcio Mendes falando de Gênesis 4, 1–7 Caim, Abel, o coração, o pecado à porta e a cena paralela era mais eloquente que o programa. Meu pai, sentado na cadeira de ferro que ele adora, aquela que parece feita para quem não pretende se levantar tão cedo.


No começo, ele até olha. Depois boceja. Cruza os braços. Pega o celular. Faz coisas aleatórias, como quem foge de um espelho. Por fim, atende uma ligação. A Palavra seguia; ele se retirava sem sair do lugar. E eu pensei, com uma ironia amarga: é sempre assim, quem mais precisa da bênção costuma ser o mais indiferente a ela.


Meu pai tem um problema sério no joelho. Anda com dificuldade. Precisa de cirurgia. Vive reclamando da dor, mas nunca da causa. A causa tem nome e sobrenome: excesso de trabalho, anos se matando no serviço, nenhuma cultura de cuidado consigo mesmo. A frase preferida dele atravessou minha infância como um refrão desafinado: “Isso é bobagem”. Às vezes vinha acompanhada de um palavrão, para dar mais convicção ao desprezo.


Bobagem era descansar. Bobagem era ir ao médico. Bobagem era se cuidar. Bobagem era, no fundo, tudo aquilo que lembrava que ele não era invencível. Agora, o corpo cobra. O joelho fala. E Deus… Deus é tratado como fundo musical.


Ele é o primeiro a ligar a TV para ver notícia de política nacional, como se dali viesse a salvação do mundo. Mas ir à missa? Dá trabalho. Rezar o terço? Cansa. Em vez disso, vídeos rápidos no YouTube, esses que não pedem silêncio, nem conversão, nem mudança só atenção fragmentada.


Antes de dormir, ele senta na varanda, coloca a mão sobre a Bíblia e reza: “Maria passa na frente”. Não é ruim. Não é errado. Mas também não é tudo. Há orações que viram álibi para a preguiça espiritual. Para quem quer uma graça, não basta tocar o sagrado como quem toca num amuleto. Fé não é superstição educada.


Meu pai vai à missa “de qualquer jeito”, quando vai. Não se prepara, não se educa, não se esforça para melhorar. Uma vez me disse, com um orgulho cansado: “Eu já fiz minha obrigação. Criei dois filhos”. Como se Deus fosse um credor e a paternidade quitasse a dívida com o céu.


Esse descaso com o sagrado não é ateísmo; é algo pior: indiferença. E a indiferença não grita, não discute, não briga com Deus. Apenas o ignora. É Caim moderno, irritado sem saber por quê, abatido sem admitir, com o coração cheio de justificativas e vazio de entrega.


Enquanto isso, lembro de um outro homem que conheci anos atrás. Estava travado na cama, praticamente imóvel. Entrou no Terço dos Homens. Hoje, dá testemunho, rema, vive. Não porque virou santo, mas porque decidiu não cochilar diante da graça. Ele entendeu algo simples e raro: Deus não faz milagre em quem só observa.


Fico me perguntando por que meu pai não pode fazer o mesmo. Não precisa virar um místico, nem um beato de manual. Só precisa parar de tratar Deus como figurante e a dor como acaso. A Palavra de hoje falava de um pecado à porta, agachado, esperando permissão. Às vezes, esse pecado não é escandaloso. É confortável. É o “depois eu vejo”. É o “isso é bobagem”.


Abel ofereceu o melhor. Caim ofereceu o que deu. Meu pai oferece o que sobra do dia, da atenção, da fé. E depois estranha que o joelho não melhore, que a vida pese, que a bênção não venha no ritmo desejado.


Talvez Deus esteja sentado ali, na sala, entre o sofá e a cadeira de ferro, esperando algo mais que uma mão sobre a Bíblia. Talvez espere um coração menos cínico, menos cansado de si mesmo, menos convencido de que já fez o suficiente.


Porque no fim, o problema não é a dor no joelho. É a alma que manca e se recusa a admitir.

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