Entre o Desespero Inventado e o Deboche Real

 


Eu estava zapeando pelo Instagram esse novo balcão de botequim onde todos falam alto e poucos escutam quando me deparei com um perfil chamado Olá Bocos, da Débora, uma mineira que observa o mundo com aquela calma desconfiada de quem já entendeu que o absurdo raramente vem de onde se espera.


O vídeo comentado não era dela. Era de uma outra mulher confesso, não a conheço que refletia, com certa angústia antecipada, sobre o desespero de ser mãe. O detalhe curioso, quase cômico se não fosse trágico: ela não era mãe. Sofria por uma vida que ainda não existia. Angustiava-se por um futuro que não chegou. Planejava dores que talvez jamais fossem suas.


Até aí, nada de novo sob o sol tropical. O brasileiro tem uma vocação invejável para sofrer por antecipação e, quando não sofre, sente culpa por não estar sofrendo.


A Olá Bocos reagiu. Fez um vídeo. E, ao final, lançou uma frase que caiu como um fósforo aceso num depósito de pólvora moral:


“Eu não quero ser mãe. E quem disse que você pode?”


Confesso: a frase é boa. Não porque responde, mas porque provoca. Não porque fecha o debate, mas porque o escancara.


Mas o meu ponto e aqui começa o verdadeiro espetáculo não é a frase. São os comentários.


Ah, os comentários.


Ali não havia diálogo. Havia torcida organizada. Gente que não quer entender, quer vencer. Gente que não quer pensar, quer carimbar. De repente, surgiram os novos fiscais da reprodução humana. Uns defendendo o direito absoluto de não ser mãe. Outros agindo como se o útero fosse patrimônio da nação. E, no meio disso tudo, um festival de deboche, indignação seletiva e certezas gritadas em caixa alta.


O brasileiro, quando se vê diante de uma reflexão mais profunda, reage de duas formas: ou ri, ou ataca. Pensar dá trabalho. Zombar é mais barato. Refletir exige silêncio interior. Debochar rende curtida.


O mais curioso é que muitos comentários demonstravam medo. Medo disfarçado de sarcasmo. Medo de encarar perguntas que não têm resposta pronta. Medo de admitir que talvez estejamos todos improvisando na vida, no amor, na maternidade, na escolha de não escolher.


O vídeo, para quem quis enxergar, não era sobre mandar ninguém ser mãe ou deixar de ser. Era sobre o desespero moderno de sofrer antes da hora, de construir tragédias imaginárias e chamá-las de lucidez. Era sobre essa mania contemporânea de transformar hipótese em trauma e possibilidade em sentença.


Mas o receio venceu a reflexão.


E assim seguimos: um país que ri quando deveria pensar, que grita quando deveria escutar, que debocha quando se sente ameaçado por uma pergunta simples demais para ser ignorada.


No fim das contas, o vídeo passou. A polêmica ficou. E o Instagram seguiu seu curso normal — essa correnteza onde todos falam, poucos escutam e quase ninguém se permite a coragem mais rara de todas: pensar sem medo do que vai encontrar dentro de si.


Talvez seja isso que mais assuste.

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