A Culpa Precisa de Palco e o Julgamento de Plateia
Eu estava na casa da minha irmã. Natal. Ceia farta, afeto sincero e aquela tradição moderna inevitável: alguém pega o controle remoto e decide o que todos devem assistir, como se fosse um decreto municipal. Ela, emocionada como sempre, convenceu-me a ver um reality show chamado Casamento às Cegas. Confesso: não resisti. Talvez por curiosidade sociológica, talvez por fadiga espiritual.
Era o último episódio da quarta temporada. Aquele momento em que os participantes reaparecem para contar ao público se o amor resistiu à vida real ou se morreu na alfândega do cotidiano. Alguns casados, outros separados, todos com discursos bem ensaiados — desses que parecem ter passado por revisão jurídica, emocional e de marketing pessoal.
Entre um casal e outro, surgiu o caso que sempre surge: sexo. Ou melhor, a ausência dele. Um homem com dificuldades de ereção, uma ex-mulher acusando abuso sexual, e um silêncio constrangido que pairava no estúdio como um cheiro que ninguém quer nomear.
Mas a minha reflexão não é sobre isso.
O que me chamou atenção foi outra coisa: a sensação de que ali não havia mais fala espontânea, mas discursos prontos, cuidadosamente embalados. Não sei e nem fui atrás de saber se havia advogados envolvidos. Mas tudo cheirava a orientação, a frases calculadas, a esse novo idioma contemporâneo onde ninguém fala o que pensa, apenas o que é permitido pensar em público.
Terminou o episódio. Minha irmã, já tomada pela emoção como quem sai de um tribunal moral decretou com firmeza:
“Ele é culpado. Se fosse inocente, teria se defendido publicamente.”
Olhei para ela com aquela paciência que só o Natal exige e respondi:
“Mas, minha irmã… e se houver um processo em andamento? E se o silêncio for proteção, não confissão?”
Ela queria mais. Queria uma fala pública. Uma confissão televisionada. Um desabafo em horário nobre. Queria que ele dissesse algo qualquer coisa que alimentasse a engrenagem do julgamento coletivo.
O problema é essa mania moderna de achar que quem é acusado deve satisfação imediata ao público, como se a verdade fosse um produto de entretenimento e não algo complexo, lento e muitas vezes silencioso. Hoje, não basta ser inocente ou culpado: é preciso performar inocência ou culpa.
Se não vai a um programa de fofoca, é suspeito.
Se não chora no YouTube, é frio.
Se não se explica no Instagram, está escondendo algo.
Criou-se no Brasil uma estranha justiça paralela, onde apresentadores, comentaristas e influenciadores assumem o papel de juízes morais. É o puro suco da indústria da miséria humana aquela que vive de explorar a dor alheia, preferencialmente de famosos ou quase famosos, porque dá mais audiência.
Vivemos sob a herança espiritual de programas que transformaram tragédia em pauta diária, desgraça em entretenimento e sofrimento em clique. A miséria precisa render. E, para render, precisa de vilões claros, frases de efeito e finais satisfatórios para quem assiste do sofá.
O mais curioso ou trágico é que as pessoas têm problemas reais: contas, doenças, frustrações, solidões. Mas preferem debater e “resolver” a vida dos outros, desde que esses outros tenham algum grau de fama. É mais fácil julgar um estranho na televisão do que encarar o próprio espelho.
No fim, desligamos a TV. O Natal seguiu. Mas ficou aquela sensação incômoda de que não estamos mais interessados na verdade apenas na versão mais conveniente, mais escandalosa, mais compartilhável.
E assim seguimos: um país onde a culpa precisa de palco, o julgamento precisa de plateia e o silêncio esse último refúgio da dignidade já é visto como crime.

Comentários
Postar um comentário